quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Entenda o Apartheid num roteiro por 3 cidades da Africa do Sul

Um dos objetivos da minha viagem à Africa do Sul foi fazer duas grandes imersões: a primeira na cultura islâmica e a segunda na história recente daquele país. De acordo com dados extra-oficiais, a África do Sul tem aproximadamente 10% da sua população islâmica (4 dos 44 milhões de habitantes daquele país seguem o Corão) e boa parte dessas pessoas estão na Cidade do Cabo. Fiquei hospedada em duas famílias islâmicas na Cidade do Cabo (diríamos, uma “praticamente” e uma “não praticamente”) e consegui entender boa parte dos preceitos do Islã. Mas esta minha proposta de imsersão foi bastante peculiar e nada turística.

A segunda imersão – pela história política do país – vale um roteiro de viagem passando por três cidades: Johanesburgo, Pretória e Cidade do Cabo. Por isso, mochileiros curiosos de plantão, peguem suas canetas e anotem: a Africa do Sul tem lugares incríveis para quem quer entender a história recente (leia-se: ascensão e fim do Apartheid) daquele país. Acompanhem abaixo:

1. Johanesburgo: Museu do Apartheid

O Museu do Apartheid, aberto em 2001, fica em Johanesburgo e está na lista dos melhores museus que já conheci, tanto em termos de organização, quanto em qualidade da amostra (foto). Se você é do tipo que anda devagar e gosta de ler as explicações e assistir aos vídeos com calma (como eu!), reserve de 2 a 3 horas para fazer o circuito completo do Museu. E vá com pique e com ânimo para receber muita informação.

O choque começa logo na entrada do Museu, dividida entre brancos e negros. Ao pegar meu bilhete escrito “white only” eu entendi o que foi o Apartheid antes mesmo de entrar na exposição. Uma sensação indescritível.

O Museu reserva uma grande seção especificamente sobre o Mandela, com fotos históricas (como do Mandela com Francois Pienaar, gancho ao filme Invictus, em cartaz), cronologia da sua vida desde o nascimento e muitos vídeos. Essa é a parte mais emocionante e não é dificil ver visitantes em lágrimas.

A seção sobre o Apartheid é bastante pedagógica. O ponto alto são os vídeos tanto dos discursos dos precursores do apartheid - aplaudidos por centenas (ou milhares) de brancos – quanto das rebeliões do bairro Soweto, onde 14 mil pessoas morreram lutando contra o apartheid dentre 1990 e 1994. Vale a pena assistir um por um. As fotos também são impressionantes.

E se quiser descontrair depois da visita, dê um pulo do Gold Reef City, um parque de diversões que fica bem em frente ao Museu. Um dia em Johanesburgo dividido entre o Museu de manhã e o parque à tarde pode ser uma boa pedida.

2. Pretória: Union Buildings
O Union Buildings é a sede do governo sul africano, onde Nelson Mandela fez seu famoso discurso de posse. Conhecer o local depois de passar pelo Museu do Apartheid, em Johanesburgo, torna o impacto da visita maior porque você entenderá a importância histórica daquele local que, no dia da posse do Mandela, foi tomado por uma multidão.


Vale a pena dar uma volta calma pelo lado de fora das instalações do governo e pelo parque que o cerca. O lugar, aliás, é lindo e rende belas fotos por causa da quantidade de flores africanas ultra-coloridas (foto). O Union Buildings acaba funcionando como um parque local, já que reúne famílias africanas, e vale um pique-nique. Leve um canga e gaste uma tarde por lá.

O problema é chegar até o local, já que a infra de Pretória é bem precária. Nós estávamos no shopping da cidade, rodamos atrás de ônibus, desistimos e penamos até conseguir um táxi. Depois, fomos a pé até o Pretória Backpakers, onde estávamos hospedados, já que não havia táxi no local. A caminhada é curta (em torno de 20 minutos) e plana, mas não faça sozinha sob hipótese nenhuma. A cidade tem fama de perigosa.

3. Cidade do Cabo: Robben Island












Tem gente de férias na Cidade do Cabo – a mais turística da África do Sul – que vai à Robben Island porque o passeio está na lista dos mais requistados na cidade. A ideia é romântica: pega-se um barco bem bonito no WaterFront da cidade e viaja-se um trajeto com vista para Table Mountain, o novo estádio Green Point, muitas vezes vendo focas nadarem ao lado do barco (foto acima à esquerda). O cenário é lindo. Mas como diz Mac Maharaj, editor de Reflections in Prision (foto acima à direita), é preciso se lembrar que Robben Island foi uma prisão política. Em outras palavras: o passeio é pesado.


Em geral, faz-se o circuito pela ilha de ônibus, passando por antigas instalações – como escolas, mesquitas e igrejas -, pelo campo de trabalho forçado (foto acima à esquerda) e pelo cemitério onde morreram mais de mil presos políticos. Esse trajeto é feito com um guia local, em geral descendente de presos políticos.
Depois, é feita a visita às instalações dos presos, a pé. Desta vez, o guia é um próprio ex-prisioneiro político (foto acima à direita) e isso é fantástico. É a história viva na sua frente.

O ponto alto é a visita à cela do Mandela (foto) um espaço com 2 x 3 metros em que ele passou 18 anos (ao todo, foram 27 anos de prisão). Observa-se o cobertor no chão (sem travesseiro) onde ele dormia e muita gente chora. A grande novidade foi descobrir que também na prisão em Robben Island havia segregação racial: só os brancos tinham direito a meias e jaquetas – lembrando que o vento lá é fortíssimo e gelado – e a pão acompanhando o “almoço” e ‘jantar”. Isso foi o que mais me chocou.
E pra quem acha que estou esquecendo do bairro negro Soweto, que fica em Johanesburgo e foi palco de várias revoluções na década de 90 pelo final do Aparheid, onde, como mencionado anteriormente, morreram cerca de 14 mil pessoas nos conflitos, digo que não vale a pena. A visita é constrangedora e muito se assemelhou à visita à Rocinha que fiz há exatos 8 anos: um guia local conduz os turistas (a maioria europeus) e os convida a entrarem num dos barracos para fotografarem as panelas vazias... A história política de Soweto mesmo você só conhece no Museu do Apartheid. Ir até lá para conhecer a história da Africa pode não valer a pena.

Texto da jornalista colaboradora (e mochileira de plantão) Sabine Righetti.

2 comentários:

Karina Bueno disse...

O texto está bem legal. Espero um dia usar suas dicas viajando para a África! Beijo.

jose disse...

ótimo texto. um tanto superficial.

a África é mais que isso, não?
mas então. qero um dia ter a oportunidade de ir conhecer o berço da humanidade.

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